Rússia na COP 28 deve manter meta de neutralidade para 2060

País tem ações apontadas como insuficientes por especialistas

Redação

em 29 de setembro de 2023


A Rússia tem metas claras para 2030 e estabeleceu a meta de reduzir os gases de efeito estufa (GEE) em 70%, tendo o ano de 1990 como base. Isso significaria passar dos 3.1 bilhões para cerca de 930 milhões de toneladas de CO2-eq. O documento oficial entregue à ONU indica que as iniciativas que serão apresentadas pela Rússia, na COP 28, devem se concentrar no desenvolvimento sustentável e na capacidade de absorção de carbono suas florestas e outros ecossistemas, um ponto em comum com o Brasil.

Os setores mais focados pelo governo russo para manter seus objetivos são os de energia, processos industriais e uso de produtos sustentáveis, agricultura, resíduos, utilização dos solos, alteração do uso dos solos e silvicultura. Eles devem absorver as políticas para redução, principalmente, do dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, mas também dos hidrofluorocarbonetos, perfluorocarbonos, hexafluoreto de enxofre e o trifluoreto de nitrogênio.

Esforços insuficientes

Na avaliação do site especializado Climate Action Tracker, que monitora o alinhamento dos países às metas estabelecidas para a ONU, a Rússia não aparece bem, tendo a classificação de Highly Insufficient, a segunda menos pior do ranking de 5 categorias, sendo a melhor delas a de compatibilidade com a meta de redução de 1,5º C na temperatura da Terra.

De acordo com a publicação, os esforços russos para combater as alterações climáticas continuam a ser muito fracos. Para os especialistas, as políticas estabelecidas são pouco relevantes ou têm um efeito esperado pouco claro sobre as emissões. “As políticas existentes na Rússia não indicam ainda qualquer compromisso real para reduzir as emissões”, sintetiza a análise do site.

A publicação também atualiza os objetivos da Rússia, com a meta de emissões líquidas zero de GEE somente para 2060. Um dado relevante é a sinalização de que as florestas absorveriam o dobro do carbono que absorvem hoje, uma previsão que estaria subestimada, não considerando, inclusive, o impacto dos enormes incêndios florestais na Sibéria nos últimos anos.

Rússia afirma que irá alcançar 80% da meta até 2050

A estratégia russa de longo prazo já havia sido destacada em 2021 pela agência de notícias Reuters, confirmando a meta de neutralidade de emissões daqui a 37 anos. Nesse sentido, o país está alinhado com a China, que também estabeleceria 2060 como data para alcançar a meta que, em nível global, tem sido prevista uma década antes. Em 2050, os russos estimam que alcançarão 80% do compromisso de neutralidade de carbono.

Em sua análise sobre a Rússia, a organização não governamental Carbon Brief destaca as reservas mundiais de carvão, petróleo e gás e lembra que os russos estão entre os maiores emissores de GEE, atrás somente da China, dos EUA e da Índia. Além disso, é o terceiro maior emissor de carbono do mundo na história, responsável por cerca de 7% do CO2 cumulativo global.

Mais do que isso, a nação depende fortemente das receitas das exportações de petróleo e gás, que em 2021 representaram 45% do seu orçamento federal.

Antes da invasão da Ucrânia, os russos eram a maior fonte de energia importada pela União Europeia, abastecendo 41% das necessidades de gás do bloco, 27% do seu petróleo e 47% do seu carvão.

Risco de degelo é ponto de atenção da Rússia na COP 28

Os analistas lembram, ainda, que cerca de dois terços da Rússia estão cobertos por permafrost – solo permanentemente congelado, que normalmente nunca descongela, mesmo durante o verão. À medida que as temperaturas globais aumentam, este permafrost tem o potencial de libertar grandes quantidades de gases com efeito estufa, um complicador adicional.

Para além da COP 28, o monitoramento da Rússia é importante para a agricultura brasileira, uma vez que 28% dos fertilizantes importados pelo Brasil vêm do país, sendo que 20% de todo adubo químico utilizado na agropecuária são de origem russa. Os dados são da revista Exame e têm como fonte a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Manter o fluxo de fornecimento de fertilizantes – praticamente um quarto do que consumimos – com a Rússia é estratégico, na avaliação de vários especialistas. Mesmo nos primeiros anos da guerra com a Ucrânia, já havia uma política de diálogo com os russos, tendo em vista a demanda de cerca de 55 milhões de toneladas/ano de fertilizantes pelo agronegócio brasileiro. O alto índice de dependência externa – chegando a 85% – reforça a importância da diplomacia brasileira em manter canais abertos.