Brasil pode liderar agenda mundial de agricultura sustentável

Especialistas defendem papel do país na agricultura sustentável durante o Brazil Climate Summit, em Nova York

Redação

em 14 de setembro de 2023


Cinco especialistas brasileiros participaram do painel Sistemas Agrícolas Sustentáveis e Resilientes: melhorando a pegada de carbono no uso da terra, que fez parte do evento Brazil Climate Summit, realizado ontem (13 de setembro) em Nova York. O quinteto falou para uma plateia internacional e mostrou, com dados, que o país tem vários qualificativos para liderar uma agenda mundial de agricultura sustentável.

Mediada pelo principal executivo da área de ESG Agro do Itaú BBA, João Adrien, a discussão considerou o cenário atual de transição para uma agricultura de baixo carbono, com destaque para as atividades nos dois grandes biomas brasileiros, a Amazônia e o Cerrado.

Para os especialistas, o Brasil tem um papel importante nessa agenda global, pois, além de grande supridor mundial de alimentos, é um motor de desenvolvimento de tecnologias de agricultura tropical. Mas o país, por outro lado, ainda enfrenta a crise de imagem causada pelo desmatamento.

Marcos Jank, professor da área de agronegócios globais do Insper, lembrou que o agronegócio ganhou uma relevância maior nos últimos três anos, em função dos efeitos da pandemia e da guerra da Ucrânia, dois acontecimentos que trouxeram problemas de fornecimento de alimentos, com agravamento da segurança alimentar, principalmente na Ásia e África. A alta inflacionária nos preços é outro problema derivado do mesmo cenário.

Com isso, o Brasil também passa a ter um papel ainda mais importante, uma vez que é um grande ator na produção e exportação de alimentos. Mesmo com os problemas de fornecimento de fertilizantes, um insumo fundamental da produção, o país teve seu melhor ano de exportação de alimentos em 2022, com a Ásia protagonizando a maior parte das compras.

Soluções baseadas na natureza

Um olhar de lupa indica o Sudeste Asiático e a China como mercados estratégicos e, no futuro, Índia e África devem aumentar sua participação como clientes do agronegócio brasileiro.

O papel de hub de tecnologia em agricultura tropical coloca o Brasil também em vantagem, ao aplicar tecnologias de plantio combinado na mesma estação e correção de nutrientes em áreas como o Cerrado, para citar dois exemplos de especialização.

Em relação à questão das emissões de gases de efeito estufa (GEE) pelo setor de agropecuária, dois terços vêm de operações do setor privado. Assim, é preciso reforçar os mecanismos de controle e comando, superando barreiras futuras, como as iniciativas europeias para restrição de compras de alimentos originados de áreas desmatadas.

Marta Giannichi, head de Operações na MyCarbon, lembra de avanços da combinação de pecuária e agricultura na rota pela sustentabilidade. A gestão de pasto é um exemplo. A especialista lembra que a pecuária tem contribuído com a redução das emissões de GEE no gado, ao adotar aditivos biológicos que influenciam na fermentação entérica e podem reduzir as emissões do rebanho.

Já Plínio Ribeiro, co-fundador da Biofílica Ambipar, argumentou que o Brasil pode ter um grande desempenho nas chamadas Soluções Baseadas na Natureza (NBS, da sigla em inglês), mas chamou a atenção para o ainda incipiente mercado de crédito de carbono ligado às atividades do setor agropecuário. Para ele, o país é um potencial candidato para soluções de sequestro de carbono, mas falta financiamento. Ribeiro acredita que se o Brasil ocupar pelo menos 10% desse mercado, já movimentará bilhões de dólares.

Paula Costa, fundadora, CTO e diretora de operações na Pretaterra, fechou o ciclo, ao falar da agricultura regenerativa e da importância de reflorestamento, não só em áreas desmatadas, mas também do plantio de espécies em terras agriculturáveis, trazendo diversidade biológica às fazendas. As iniciativas, no entanto, enfrentam três grandes desafios, de acordo com ela.

O primeiro – e mais óbvio – é o da cadeia de suprimentos. Paula lembra que as comunidades agrícolas são diferentes e nem todas têm equipamentos e implementos para realizar o plantio de novas espécies. E, no caso das frutíferas, que podem representar uma nova frente de lucro, é preciso considerar a questão de logística, principalmente nas propriedades mais afastadas. Vale lembrar que a cadeia de suprimentos também envolve o fornecimento de sementes.

Gestão de plantio

O segundo desafio colocado por Paula é a capacidade de construção desse modelo, desde áreas de estoque até a gestão do plantio. Se as fazendas que não se restringem à monocultura já têm problemas nesse tipo de gestão, o acréscimo de outras espécies amplifica a complexidade. A construção de capacidade inclui ainda os recursos humanos, pois são atividades que exigem habilidades diferenciadas.

O mais desafiador, no entanto, é a mudança de mentalidade. Além de envolver muita aprendizagem, a agricultura regenerativa também precisa mostrar que pode ser lucrativa, caso contrário não fará sentido para muitos produtores rurais.

Um dos caminhos para que ela se amplifique é a participação ativa de offtakers, ou seja, compradores que apostem na agricultura regenerativa. É o caso, por exemplo, da Natura, no Brasil, e outros elementos intermediários da cadeia, que sejam incentivadores dessa produção, inclusive com o posicionamento premium em termos de precificação. Paula aposta no modelo em que os offtakers possam financiar e testar novos produtos, compartilhando os riscos com os produtores agrícolas. Para os participantes, a ideia é interessante, pois dispensa o Brasil de importar tecnologias e, pelo contrário, permite que o país exporte know how.

Ribeiro, da Biofílica Ambipar, citou a necessidade de mais programas de conservação, lembrando que o país não pode perder florestas e apostar no alinhamento de incentivos que ajudem a conservar outros recursos, como os hídricos. Paula acrescentou que ações no longo prazo devem fazer parte da agenda, caso do reflorestamento.

“Ao contrário da pandemia, que mostrou muitas soluções nacionais, a agricultura sustentável deve ser pensada como solução global”, finalizou Ribeiro.