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Climate Week discute a rastreabilidade bovina

Assunto destaque no evento pode consolidar o Brasil no mercado global

Redação

em 10 de outubro de 2023


O Brasil vem sendo apontado como protagonista na liderança da agenda global que busca, além da segurança alimentar e nutricional, o combate às desigualdades e o enfrentamento das mudanças climáticas. Neste cenário, a rastreabilidade bovina e da cadeia produtiva tornou-se fundamental.

O assunto ganhou destaque durante a durante a Climate Week Nova Iorque, evento realizado anualmente nos Estados Unidos, que levantou a discussão sobre diversas questões relativas à agropecuária e ao uso da terra. Entre elas, a realidade da pecuária brasileira, a necessidade de inclusão dos pequenos produtores e, por fim, uma solução concreta para a rastreabilidade bovina no Brasil, com implementação viável no curto prazo.

Reavaliando a cadeia de suprimentos da pecuária na Amazônia

A reunião foi realizada pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura e pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), com participação do Science Panel for the Amazon (SPA) que, por sua vez, é uma iniciativa de Jeffrey Sachs, professor na Columbia University e presidente da Sustainable Development Solutions Network (SDSN). 

No centro do plenário, a relação entre a indústria de proteína e o desmatamento, tendo como foco a rastreabilidade do gado.

Entre os convidados, participaram Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente; Kevin Karl, pesquisador da Columbia University; Fernando Sampaio, diretor de sustentabilidade da Abiec e colíder da Força-Tarefa de Rastreabilidade e Transparência da Coalizão; Marcello Brito, secretário-executivo do Consórcio da Amazônia Legal; e Leila Harfuch, sócia-gerente e pesquisadora sênior da Agroicone e colíder da Força-Tarefa de Finanças Verdes da Coalizão. O fechamento ficou por conta de Roberto Waack, presidente do conselho do Instituto Arapyaú e um dos fundadores e integrante do Grupo Estratégico da Coalizão.

O evento contou com participação remota e local, e evidenciou a adesão de diversos setores da sociedade ao movimento que vem sendo gestado no âmbito da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, que tem a participação ativa de empresas como a Marfrig e representantes do setor pecuário, a exemplo da Abiec.

Participaram da reunião empresas (Minerva, Carrefour, re.green), bancos (Itaú, Itaú BBA), fundos (JBS, Bezos Earth Fund), academia (USP, Insper, CPI/PUC-Rio), consultorias (Agrotools), organizações da sociedade civil (TNC, CI, WWF, iCS, NWF, Proforest, Instituto Talanoa, Uma Concertação pela Amazônia, Imazon, Imaflora), a agência de cooperação internacional GIZ, a rede de investidores FAIRR e a Embaixada da Noruega.

O que diz o Science Panel for the Amazon (SPA)

O Science Panel for the Amazon (SPA) é um grupo formado por 250 cientistas, que defendem quatro pontos importantes:

  • estabelecer uma moratória imediata em áreas que já se aproximam de pontos de ruptura;
  • garantir desmatamento e degradação zero em toda a bacia amazônica até 2030;
  • restaurar ecossistemas terrestres e aquáticos;
  • investir em educação, ciência, tecnologia e inovação, para fortalecer a economia das florestas e dos rios, incentivando o conhecimento científico e o conhecimento indígena e local.

Para os cientistas, parte das emissões de gases de efeito estufa do Brasil provém da mudança no uso da terra. Neste cenário, a descarbonização da economia brasileira precisa envolver também o campo. Sem isso, é improvável que o país alcance os objetivos traçados nas contribuições nacionalmente determinadas (NDC). 

É fato que o desmatamento não é um problema unicamente relacionado ao clima, mas que envolve a biodiversidade e a água. Além da biodiversidade, a Amazônia tem grandes estoques de carbono que precisam ser conservados. No caso da floresta amazônica, as alterações climáticas globais, combinadas com o desmatamento e a degradação, devem levar o sistema a pontos de ruptura em um curto espaço de tempo.

Food security e nature security

O Brasil pode conquistar uma nova posição política na agenda global com a expansão dos BRICS, a inclusão da China, a entrada da União Africana no G20 e o surgimento de novos blocos, inclusive o bloco da Bacia Amazônica. Assumir a liderança e valorizar os ativos da natureza, são ações capazes de conduzir o Brasil a uma nova posição.

A transição alimentar passou a fazer parte do topo da lista das preocupações mundiais, o que significa que é preciso repensar o modo de produção, levando em consideração a redução e neutralização da pegada de carbono. Outros fatores, como controlar o desmatamento, promover a justiça social, combater a fome e estimular a inclusão social de pequenos produtores também fazem parte do escopo

A rastreabilidade será um fator-chave para os países que produzem alimentos de baixo carbono. A tendência é que eles tenham vantagens competitivas relevantes relacionadas ao tema, conquistado reconhecimento e importância nas negociações.

De acordo com Izabella Teixeira, o Brasil é visto como um país que tem não só alternativas, mas também soluções para oferecer. Contudo, a produção agropecuária precisará de ajustes. E esse deve ser justamente um dos assuntos principais da COP 30, que o Brasil sediará em 2025.

A agenda de baixo carbono deve avançar com o apoio da sociedade civil, do setor privado e do governo. A proposta de rastreabilidade conta com ações que devem ser implementadas em curto prazo, embora seja necessário manter a transparência das informações e accountability.

Sistemas de produção

Kevin Karl é um pesquisador que tem como foco de estudo a interseção entre sistemas de produção alimentar e mudança climática, na Columbia University. Ele integra o grupo do professor Walter Baethgen, que enfatiza a importância de lidar com as emissões de metano no curto prazo – em linha com a abordagem step by step. 

Segundo o pesquisador, o impacto do aquecimento das emissões no início da década de 2030 será mais proveniente do metano do que do carbono gerado no desmatamento, de acordo com as taxas de 2020.

Para Karl, o desmatamento e as mudanças no uso da terra continuam sendo importantes, especialmente no caso do Brasil. Contudo, é preciso manter no radar as emissões de outros gases, como o metano e o óxido nitroso.

O metano é um dos gases lançados na atmosfera via pecuária. As emissões, entre elas a fermentação interna dos ruminantes, respondem por 40%. De acordo com o AR 5 do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), em um ciclo de vida de 100 anos, o metano pode ser até 28 vezes mais potente do que o dióxido de carbono. Mas, quando comparado com o dióxido de carbono, sua permanência na atmosfera declina rapidamente em dez anos. Ou seja, se as emissões de metano forem reduzidas significativamente, torna-se possível, em um curto prazo, ter melhor impacto no clima.

As emissões do sistema agroalimentar envolvem elementos que não estão sendo analisados da forma correta, principalmente quando se fala em agenda de baixo carbono.  

Dinâmica do uso da terra no Brasil

Para Fernando Sampaio, da Abiec, a dinâmica do uso da terra no Brasil é um paradoxo: nos últimos 20 anos, enquanto o desmatamento cresceu, a área de produção de carne bovina diminuiu. Além disso, muitas áreas que eram de pastagens agora são de cultivo agrícola, especialmente soja e eucalipto.

De toda forma, as pastagens ainda ocupam muito espaço. Vale ressaltar que isso não acontece para produzir carne, mas, sim, como estratégia fundiária para ocupar terras recém-desmatadas usando o boi. Infelizmente, 76% da área de pastagem é ocupada por produção pecuária de baixa tecnologia e baixa eficiência.

Esse cenário permite uma abertura de oportunidade econômica, ambiental, climática e social, uma vez que todo esse espaço pode ser usado para aumentar a produção de carne bovina, só que agora com o apoio da tecnologia, satisfazendo a crescente demanda global. Além disso, permite reduzir a pegada ecológica com o uso de técnicas agrícolas de baixo carbono e a restauração de pastagens degradadas. A alternativa para concretizar isso é a inclusão de pequenos produtores e adesão às boas práticas.

Cabe ao governo controlar o desmatamento ilegal e dar a devida destinação às terras públicas invadidas, além de implementar o Código Florestal e proteger as Terras Indígenas e as Unidades de Conservação. Já ao setor privado, cabe controlar as cadeias de abastecimento e apoiar os produtores. 

Monitoramento e rastreabilidade

O monitoramento da origem do gado tem sido feito desde 2009 pela Abiec, em parceria com a Wisconsin University. Sobre o monitoramento da cadeia, ele reduziu em 15% o desmatamento provocado na Amazônia. A área de influência dos frigoríficos permanece relativamente estável desde 2013, o que significa que o gado tem sido adquirido dos mesmos produtores.

A política de rastreabilidade para produtos agrícolas precisa ser estabelecida no Brasil. A cadeia produtiva da pecuária é composta por vários elos. No caso do gado, ele é deslocado de uma fazenda para outra nos processos de cria, recria e engorda. Porém, sempre houve muita resistência para se implantar sistemas de rastreabilidade. O alto custo e complexidade da cadeia de fornecedores colaboram para isso. Todavia, este é um projeto que demonstrará resultados em médio e longo prazos. No caso do Brasil, as respostas desejadas devem ser imediatas.

Um sistema de rastreabilidade mudará a realidade para que os pequenos produtores sejam incluídos na cadeia de valor sustentável. O fato é que isso os diferenciará dos produtores ilegais, que utilizam o boi para fins fundiários.

Hoje, no mercado, existem mais de 10 mil produtores que são automaticamente excluídos e não podem vender para os frigoríficos porque não cumprem os critérios exigidos pela indústria.

Políticas inclusivas

Para Marcello Brito, do Consórcio da Amazônia Legal, há questões na agricultura regenerativa e na adaptação e mitigação climática que são estratégicas para as empresas, pois tratam, principalmente, sobre a reputação das empresas e atingem a parte financeira delas.

No mundo, cerca de 1,8 bilhão de pessoas vivem em um sistema de produção de alimentos em fazendas. Destes, 95% são pequenos produtores que, por sua vez, não têm acesso à discussão sobre rastreabilidade, sustentabilidade e tecnologia. Nesse sentido, é preciso que eles sejam alcançados e impactados com políticas públicas e ações de larga escala. 

Internacionalmente, as políticas públicas estão relacionadas à geopolítica com o apoio das conferências das Nações Unidas sobre clima e biodiversidade (COPs). Contudo, em âmbito nacional, é preciso implementar políticas públicas como a da rastreabilidade. 

Rastreabilidade

A pecuária bovina de corte conta com mais de 2,5 milhões de estabelecimentos. Neste cenário, o Brasil se tornou o maior exportador de carne do mundo em 2022, com 152 milhões de hectares de pastagens que abrigavam cerca de 224 milhões de cabeças de gado (dados de 2021, segundo a Abiec). Foram comercializados 2,26 milhões de toneladas para mais de 150 países em 2022.

Com cadeia produtiva complexa, a pecuária brasileira ainda sofre por não conseguir identificar de forma precisa a origem do gado. Isso, infelizmente, deixa a atividade exposta a alguns riscos como o de desmatamento, o que gera prejuízos para o clima e para a proteção da biodiversidade. O mercado consumidor pressiona o setor sobre a necessidade da rastreabilidade bovina, justamente para confirmar a origem do gado.

Segundo especialistas presentes à Climate Week, a partir do momento em que o Brasil se posicionar no cenário global de rastreabilidade, terá condições de cobrar essa mesma posição dos outros países, principalmente no que diz respeito à pegada de carbono. Com isso, o mercado brasileiro pode ser amplamente beneficiado.